Virada Russa, alcance
Amanhã nos entenderão.
Hoje, morreremos todos.
Nikolai Punin
Punin era “o” crítico do movimento, aquele quem primeiro percebeu ao alcance do questionamento da russa. Perseguido por Stalin, morreu sozinho para lá do círculo polar, exilado. Cerca de 40 anos após sua morte, a URSS seria história e a coleção do Museu Estatal Russo rodaria o mundo.

Punin perdera a batalha, mas o futuro lhe faria justiça. Lúcido e modesto.
Porém, o mais importante legado da exposição Virada Russa é trazer à superfície, mui claramente, as disputas subjacentes à toda e qualquer produção artística. Sobretudo por que hoje, aqui mesmo na cidade de São Paulo e em todo Brasil, não é diferente.
Tá, eu sei que você já pensou nisso. Mas eu tinha de postar. E beijo. Acabou a minissérie.
Matisse versus Dubuffet
Nesse domingo, tentamos em vão, ver o Matisse. A fila? Quilométrica. Não aquela que dá acesso ao prédio. Essa estava até razoável. O problema era para ver as obras. Pois é, tem fila para ver as obras! Demorô.
Pergunto-me por quê.
Tudo bem, não serei eu a questionar a importância do mestre. Até Duchamp dizia que a descoberta de suas obras lhe causou mais impacto que as obras de Cézanne. Coisa que muito me espanta.
Mas… Voltando. Pergunto-me por quê tanto furdunço em cima do Matisse. Se fosse por (puro) amor às vanguardas e afins, a exposição de Dubuffet no Tomie Ohtake teria bombado também. Mas não. Será que alguma personagem de novela indicou o Matisse em horário nobre?
Virada russa: Vkhutemas
Ideas are more powerful than guns. We would not let our enemies have guns, why should we let them have ideas.
Joseph Stalin

Toda vez que se pode falar em arte oficial, danou-se. Ou seja, uma das grandes personagens da exposição é o fantasma da cerrada opressão que, personificada pelo próprio Stalin, sufocou a própria essência da vanguarda russa. Essa, tá facinho.
Sobre os artistas, idem. A gente tem praticamente todo mundo: a Complexo de Napoleão que acometia Maliévitch, a obsessão analítica de Filonov, o lirismo de Chagall, uma pincelada de Tatlin, o impressionante Rodchenko, Liebedev, Machkov, Samokhvalov com sua saborosa operária.
Porém, a menos que você seja muito atento, não perceberá que está faltando alguém muito, muito, muito importante na coleção. Alguém de quem provavelmente nunca ouviu falar. Falo da Vkhutemas (Vysshie Gossudarstvennye Khudozhestvennye Massterskie) que a exposição apenas cita como um pormenor, um genérico “Instituto de Arte Aplicada”, se não me engano.
O que é inacreditável visto que a escola é tão importante quanto a Bauhaus que, por sua vez, (ainda) influencia a formação dos alunos da FAUUSP por exemplo e portanto, esse humilde blogue. Pessoalmente falando, mesmo hoje, não vejo outro modo de formar pessoas que queiram ser arquitetos, designers, artistas e afins. Gropius tinha toda razão.
O conteúdo programático foi elaborado por Kandinsky e era semelhante ao da escola alemã. Ademais, à Vkhutemas está associado o trabalho do construtivista Rodchenko (professor de arquitetura na escola, autor de hipnóticos modelos e fotógrafo), do grupo UNOVIS / Maliévitch e (por oposição) Tatlin, aquele da inesquecível torre.
Mas a ausência da Vkhutemas não é de espantar. Assim como a experiência alemã, também se calou face ao totalitarismo. Mantê-la funcionando era um risco do qual Stalin provavelmente estava muito ciente. E ele não dava ponto sem nó. Segmenta a escola em diversos institutos antes de fechá-la em 1930. A Bauhaus acabaria em 1933.
Então, olhe a exposição com isso em mente. =)
SAIBA MAIS
- Bauhaus and VKhUTEMAS: A Struggle for Utopia, por Angela Harutyunian
- Vkhutemas na wikipédia
- Bauhaus
To be continued…
Amanhã o último post sobre a exposição. Beijo me tuita.