Eco, Duchamp e Dostoiévski

As dignas formigas começaram pelo formigueiro e certamente acabarão por ele, o que confere grande honra à sua constância e caráter positivo. Mas o homem é uma criatura volúvel e pouco atraente e talvez, a a exemplo do enxadrista, ame apenas o processo de atingir o objetivo, não o próprio objetivo. E – quem sabe? -, não se pode garantir, mas talvez todo o objetivo sobre a terra, aquele para o qual tende a humanidade, consista unicamente nesta constinuidade de atingir o processo de atingir o objetivo, ou, em outras palavras, na própria vida e não exatamente no objetivo, o qual, naturalmente, não deve ser outra coisa que o dois e dois são quatro, isto é, uma fórmula; mas na realidade dois e dois não são mais a vida, meus senhores, mas o começo da morte.

Memórias do subsolo, Dostoiévski

Impressionante como, até mesmo as pessoas mais descoladas, exxxxpertas e inteligentíssimas, ainda – sim, ainda – estão no século XIX. Claro, não é o caso de ninguém aqui. Você já sabe há tempos que…

O conhecimento do mundo tem na ciência seu canal autorizado e toda aspiração do artista à vidência, ainda que poeticamente produtiva, contem sempre algo de equívoco. A arte, mais do que conhecer o mundo, produz complementos do mundo, formas autônomas que se acrescentam às existenmtes, exibindo leis próprias e vida pessoal. Entretanto, toda forma artística pode perfeitamente ser encarada, se não como substituto do conhecimento científico, como metáfora epistemológica: isso significa que, em cada século, a modo pelo qual as formas da arte se estruturam reflete – à guisa de similitude, de metaforização, resolução, justamente, do conceito em figura – o modo pelo qual a ciência ou, seja como for, a cultura da época vêem a sociedade.

[...]

A obra de arte (…) exige portanto ser considerada não como um fecho de uma realidade estática e imóvel, mas como a abertura de um infinito que se faz inteiro abrigando-se numa forma.

Obra aberta, Umberto Eco

Mas um amigo sujeito que foi em casa dia desses, não sabia. Ficou indignado ao saber que pretendo, oxalá, empilhar um milhão de pequenos cubos de 1×1x1cm de modo a esculpir um cubo de 1 metro cúbico. Argumentou que seria mais proveitoso fazer uma peça grande, ao invés de “perder tempo” montando tantas peças. Segundo ele, as pessoas não perceberiam que se trata de muitas peças reunidas.

Ademais, como as peças seriam simplesmente justapostas, a obra não teria uma durabilidade satisfatória. Chegou mesmo a dizer que o meu projeto não é arte pois, para ser apreciado, as pessoas precisam “entender de arte”, saber em que termos se dá meu discurso. Sua maior indignação, no entanto, era a minha motivação. Indagava-se sobre o que essa obra versa, o que pretende, se na arte está valendo o oba-oba. Se tudo e nada são arte, bastando para isso movimentar ao acaso a idéia de arte.

Claro, sem saber, caiu na armadilha burguesa de “entender” a arte como pura convenção. Sim, arte é conveção, mas não somente. Que tal, seguindo os passos de Umberto Eco, perceber a arte como um delicioso equívoco capaz de reunir gente realmente descolada, exxxxperta e inteligentíssima como Eco, Duchamp e Dostoiévski e gente simples como nozes?

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4 Responses to “Eco, Duchamp e Dostoiévski”

  1. uma situacao bem tipica nao?
    mas isso nao me tira a lucidez de que o incompreensivel muitas vezes é o que nos salva………
    viva a arte seja ela do jeito que for…….

    simplesmente arte.

    bjo grande, feliz natal e um maravilhoso ano novo.

    Maria D.

  2. JH says:

    Never mind the bollocks!

    Arte que mereça o nome sempre foi invenção, a despeito do que dizem/disseram os contemporâneos.

    Saudades de você…

  3. Charô says:

    Beijo minha gente!

  4. “Há algo de mecânico nos seus enlevos…”